piramides
20/01/2014
"Essa história começa em um funeral. Começa na morte, a forma mais inusitada de começar qualquer coisa, ainda mais um amor. Mas essa não é uma história sobre amor e muito menos sobre morte. É uma história sobre qualquer coisa, nem eu sei a certo.

Toda aquela atmosfera de luto era terrível, especialmente porque minha família era tradicional a ponto do corpo do morto estar esfriando no quarto da minha tia, no andar de cima, enquanto o resto da família, ainda vivos (uns mais que outros) beliscavam petiscos na sala de estar. Eu odiava aquela coisa toda, sempre odiei, e infelizmente além de tradicional, minha família parecia ter um péssimo sistema imunológico. Eu tinha só dezenove anos e aquele era o terceiro funeral que eu ia em menos de cinco anos.

Tudo bem que o morto dessa vez era o tio George e ele era velho desde antes de eu ter dentes na boca, coisa que eu nunca lembro dele ter tido. Tio George era um idoso meio irritante, caduco, protestante, odiador de ingleses, que cuspia demais em cima de você quando falava. Todo mundo vivia falando mal dele, em especial sua esposa, a tia Norah, mas agora que o velho havia passado dessa pra melhor, a família inteira chorava. Santa hipocrisia. Se quiser fazer todo mundo gostar de você, a única coisa que precisa fazer é morrer."
(...)
 
 
✝: beetlebum | blur
 
 
piramides
03/09/2013
Eu perguntei a ele o que ele estava fazendo, mas eu não precisava que ele respondesse. Eu sabia exatamente o que ele estava fazendo. Já tinha visto seus amigos o fazerem. Já tinha escutado promessas, mentiras e desculpas. Estava cansada delas. Mas também não sabia se estava pronta para a verdade. Só que a verdade estava ali, dançando na minha frente, gigantesca, brilhante. Não podia tirar meus olhos dela. Não podia fazê-la desaparecer com uma mentira. Não havia nenhuma forma de mentir para mim mesma.
Se em algum momento eu desejei a verdade, a única coisa que eu queria agora é que ela sumisse para sempre. Não precisava dela, não a queria. Mas lá estava ele, esfregando-a na minha cara, sem nem ao menos dizer algo. Ele não tinha que dizer nada, não havia nada a ser dito.
Será que eu tinha pedido essa situação para mim mesma? Pois a sensação era de que tinha sido jogada nesse ninho de problemas que nunca procurei. Mas eles tinham me avisado. Todos eles: meus amigos, minha família, pessoas que realmente se importavam comigo. Eu tinha escolhido ignorar seus avisos, mas certamente não tinha escolhido ser jogada no mar turbulento. A única coisa que podia fazer agora era nadar contra a correnteza, mas nunca fui boa em nadar contra nada.
Também não era culpa dele. Mas a culpa tinha que ser de alguém. É o instinto mais primitivo e mais racional do ser humano. Culpar outros por tudo que acontece. Sempre reação, nunca a ação que começou com tudo. Se a culpa não era dele, e certamente não era minha... então era culpa de quem?
 
 
✝: Sedative | Babyshambles